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Presidente da ABERT em entrevista à Informa
Na terceira e última parte de entrevistas com presidentes de Associações do setor de rádio e televisão, a Informa apresenta a entrevista com Emanuel Soares Carneiro, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT).
A ABERT foi fundada no dia 27 de novembro de 1962. Nascia como uma sociedade civil sem fins econômicos, de duração indeterminada, constituída por empresas de radiodifusão autorizadas a funcionar no País e por outras pessoas físicas e jurídicas com vínculos e participação no setor. A entidade representa 2.430 emissoras de rádio e 320 de televisão, e seu principal objetivo é a defesa da liberdade de expressão, em todas as suas formas, bem como dos interesses das emissoras de radiodifusão.
Em setembro de 2009, foi eleito para a Presidência da ABERT, Emanuel Soares Carneiro. Administrador de empresas, jornalista há 49 anos e presidente da Rede Itatiaia, Emanuel ocupava a vice-presidência há mais de 20 anos, fazendo parte do Conselho Superior. Em entrevista à Informa, o presidente da ABERT falou sobre as metas para o biênio 2010-2012, as expectativas sobre o rádio digital, a atuação da Associação em relação à liberdade de imprensa, e sobre vários outros assuntos.
Informa: Quais os principais desafios da ABERT hoje?
Emanuel Carneiro: Os desafios são muitos, mas destacaria a defesa da liberdade de imprensa no país e a preservação do modelo federativo da radiodifusão. No primeiro caso, observamos com preocupação a recorrência de crimes contra jornalistas, iniciativas legislativas e medidas judiciais que resultam em cerceamento da atividade jornalística. Lutar contra essas ameaças é um desafio permanente, já que a liberdade é o oxigênio de nossa atividade. No segundo caso, é este modelo idealizado no Brasil que permite levar informações de qualidade, entretenimento, cultura e prestar serviços de utilidade pública à população, de forma gratuita. O modelo federativo de radiodifusão possibilita integrar o país por meio da diversidade de realidades retratadas na televisão, sem perder o olhar local, que tem no rádio o grande meio de comunicação. Do ponto de vista econômico, é este modelo que oportuniza às pequenas e médias empresas anunciarem seus produtos e serviços localmente a um custo adequado a sua realidade financeira, alcançando público-alvo, melhorando suas vendas e gerando empregos.
Informa: Como tem sido a atuação da ABERT com relação à liberdade de imprensa?
Emanuel Carneiro: Uma democracia se constitui a partir de uma sociedade civil participativa, de governos transparentes e de uma imprensa livre. Temos o papel de fiscalizar os poderes públicos, a ação de autoridades, em favor dos interesses do cidadão. A liberdade de expressão, de opinião, de imprensa e o direito ao acesso livre de qualquer pessoa à informação são direitos consagrados na nossa Constituição de 1988. Infelizmente, ainda convive-se com ameaças e violações de toda ordem, assassinatos de jornalistas, atentados, censura judicial e iniciativas legislativas e caráter restritivo. Um relatório produzido pela ABERT, sobre violações à atividade no Brasil, a ser apresentado na próxima Conferência da Associação Internacional de Radiodifusão (AIR), no começo de outubro, em Lima (Peru), revela um cenário preocupante. Apenas entre maio e setembro deste ano, cinco jornalistas foram mortos no país, além de outros casos de violência e censura prévia. O Brasil está na segunda colocação em um ranking de nove nações do continente sobre crimes contra profissionais de imprensa. Portanto, essa é uma preocupação permanente da ABERT.
Informa: Qual o papel do rádio para o desenvolvimento econômico e social do Brasil?
Emanuel Carneiro: O rádio tem uma história quase centenária de serviços prestados ao Brasil. Nenhum outro meio desenvolve com o público o nível de interação, agilidade e proximidade alcançado pelo rádio. Ele tem a capacidade única de falar das realidades locais, ouvir a população e seus anseios, levar informação, promover o debate sobre temas comunitários. E, por fazer isso de forma gratuita, é eminentemente popular e democrático. Ao levar informação, o rádio ajuda a promover o desenvolvimento social, contribuindo com a cidadania. Uma pesquisa realizada pela Tendências – Consultoria Integrada – indica a relação positiva entre a inserção do rádio e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Por exemplo, com base na pesquisa, constata-se que pessoas do mesmo Estado que tiverem aumento de 10% no acesso ao rádio terão, em média, um aumento de 3,01% no IDH. Isso representa avanços na expectativa de vida e no nível de educação e saúde, por exemplo. A presença de emissoras comerciais de rádio significa maior dinamismo econômico em mercados locais. O rádio permite às empresas locais a divulgação de produtos e serviços, dirigidas ao público-alvo a um custo acessível. Dessa forma, estimulam-se as vendas e, por consequência, os empregos locais. Além disso, o fato de ofertar informação sobre tendências de mercado estimula as oportunidades de trabalho, novos produtos e tecnologias, o que interessa tanto ao empresário como ao trabalhador, melhora a eficiência dos mercados e o desempenho profissional.
Informa: Qual a expectativa da ABERT em relação à definição do padrão digital para o rádio? A indústria brasileira está preparada para atender ao rádio digital?
Emanuel Carneiro: O Ministério das Comunicações anunciou a realização de testes com os padrões mais conhecidos no mundo, o HD Radio (EUA) e o DRM (Europa). Diante disso, a ABERT aguarda os resultados. Há alguns anos, a Associação tem defendido a digitalização do rádio brasileiro. A razão é simples. O rádio é o único entre os meios de comunicação que permanece no padrão analógico. São 4,5 mil emissoras comerciais e 200 milhões de receptores. O rádio está presente em 50 milhões de domicílios (88,9%) e tende a expandir-se através de novas plataformas. Por exemplo, o rádio cresce junto com o acesso a telefonia celular. Temos hoje 205,15 milhões de aparelhos celulares habilitados (Anatel), dos quais 36% equipados com aparelhos de rádio. Ou seja, são quase 75 milhões de receptores de rádio, que sequer são considerados pelos institutos de pesquisa. Isso sem considerar o acesso por meio de Ipod’s, MP3, MP4 e outros equipamentos. Portanto, aguardamos com expectativa a definição do padrão digital que melhor atende as emissoras brasileiras e a população.
Informa: Quais os principais benefícios da digitalização do rádio? Que serviços adicionais poderão ser explorados e oferecidos aos ouvintes?
Emanuel Carneiro: A digitalização garantirá ganhos de qualidade de áudio, a oferta de novos recursos como texto, imagem e a multiplicidade de programações em um único canal, denominada multicasting. Um rádio que opera em AM, por exemplo, poderá ser ouvido com qualidade de FM e as rádios em FM terão qualidade similar à de CD.
Informa: Qual sua opinião sobre a flexibilização do horário da “Voz do Brasil”?
Emanuel Carneiro: Flexibilizar o horário de transmissão do programa é uma imposição do momento, por razões muito práticas. Nesses 75 anos que nos separam da criação da “Voz do Brasil”, o país passou por grandes transformações tecnológicas, demográficas, sociais e econômicas. A rotina das cidades médias e grandes se alterou por completo, e hoje, às 19h, a maioria das pessoas está se deslocando para casa e precisa de informação, por exemplo, de trânsito. Daí a proposta de permitir o começo do programa entre 19h e 22h, onde cada emissora poderá decidir o que fazer conforme a realidade local. E o ouvinte terá opções de escolha. Para ter uma ideia, em 1935, havia apenas 41 emissoras comerciais de rádio outorgadas no país e a estrutura de comunicação governamental era insignificante. Atualmente, os poderes públicos – em todos os níveis – dispõem de um potente aparato de comunicação de cerca de 650 emissoras de TV e rádio, sem falar nas páginas de internet, jornais e revistas. A radiodifusão comercial é formada por 4.526 emissoras de rádio e 320 geradoras de televisão. Se considerarmos a radiodifusão comunitária e educativa, são mais de 4.193 rádios e 202 emissoras de TV. Depois de dez anos de discussão no Congresso Nacional, o projeto só depende de aprovação do plenário da Câmara e de sanção da presidente da República. De autoria da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), a proposta foi aperfeiçoada e, por isso, acreditamos que o relatório final do deputado Mendes Ribeiro Filho (PMDB-RS), será aprovado e sancionado.
Informa: O que é fundamental para uma emissora de rádio ser bem sucedida nos dias de hoje?
Emanuel Carneiro: O sucesso de uma emissora de rádio é resultado da combinação de uma boa administração, de uma programação de qualidade e do uso adequado dos novos recursos tecnológicos. Cada vez mais é preciso apostar na profissionalização, na inovação, na criatividade e na qualidade do conteúdo produzido. A consequência disso será a fidelidade dos ouvintes e anunciantes.
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